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Vamos atirar uma bomba ao destino

Não somos de nos contentar com o que o destino reserva para nós. Sonhamos alto e frequentemente caminhamos fora da estrada.

Laura Palmer - Capítulo 21

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C A P Í T U L O  2 1

Vim para um colégio interno em Lisboa para tentar fugir a Miguel, mas por muito que fuja parece que nunca é suficiente. Ele encontra-me sempre...  E com ele vêm todas as memórias e dúvidas do passado.

Disse-lhe que ía pensar na sua proposta para poder ir atrás de Mateus, mas o Miguel não é burro...

- Não há nada para pensar Laurinha, eu amo-te! - ele disse quase num sussurro procurando os meus olhos que fixavam o chão. - Já percebi, vais atrás do teu amiguinho, não é?! Tudo bem!

Os seus olhos azuis olhavam-me com frieza e a ténue linha que os seus lábios formavam quase num sorriso fazia-me querer que o que quer que fosse que passava pela cabeça de Miguel neste momento não era nada de bom...

- Até já meu amor.

Podia ouvi-lo. Era uma ameaça. Ele mostrava-me, como já o tinha feito no passado, que não tenho saída, não posso fugir dele.

Saí dali o mais rápido que pude, não sei se por medo a Miguel se por preocupação com Mateus e corri para a porta das traseiras.

Tudo na minha cabeça estava uma confusão. Todos os momentos chave do último ano estavam em replay, misturando-se com as memórias mais recentes de Mateus e do resto do grupo e criando um autêntico filme de terror mesmo em frente dos meus olhos. Miguel é prefeitamente capaz de fazer algo contra eles, disso não dúvido! 

Ele fê-lo contra mim.

E nas suas palavras, ele ama-me.

Não quero nem imaginar aquilo que ele pode fazer contra Mateus, agora que declarou que não gosta dele. O mero pensamento de tal faz o nó na minha garganta ficar ainda mais apertado... Não posso deixar que nada de mal lhe aconteça, caramba! Ele já me ajudou tantas vezes...

Abri a porta, a minha visão já estava turva, mas as lágrimas não caíam. 

Mateus estava lá, encostado aos cacifos, à minha espera. Todo o seu rosto transparecia deceção e mágoa.

As lágrimas que tão duramente segurei desde que o vi aparecer atrás daquele edifício começavam a cair. Desta vez não era outro dos meus patéticos ataques de raiva.

Chorava de medo.

Medo de Miguel. Medo do que Miguel veio aqui fazer. Medo do que Miguel pode fazer contra Mateus.

- Laura... - a sua expressão tomava agora contornos de preocupação. - Laura, o que é que ele te fez?

As suas mão seguravam a minha cara, mas eu não ousava olhar diretamente para os seus doces olhos cinzentos, era demasiado perigoso...

A nossa proximidade é demasiado perigosa! 

Um dia todos estes problemas vão dar para o torto e Mateus vai sair magoado, Miguel vai ter a certeza de que isso acontece, talvez até por mim. E eu vou sair igulamente magoada, por não o ter afastado, por ter permitido que Miguel se aproximasse de Mateus da mesma forma que permiti que se aproximasse de mim!

Mateus faz-me bem. Acalma-me, protege-me. Há muito tempo que não me sentia tão bem perto de uma pessoa como me sinto quando estou com ele. Mas também me faz mal. Sempre que estamos juntos sinto que estou a arrastá-lo comigo para o buraco negro para onde caminho, e este sentimento corrói-me, faz-me sentir uma pessoa péssima.

Não o mereço... Quero mantê-lo por perto porque ele me faz sentir bem, mesmo que isso signifique pôr a sua vida em perigo.

Sempre que tento afastá-lo, ele não o permite, e depois... acabo por perder a corajem, ao vê-lo assim, tão preocupado, pronto a enfrentar seja o que for por mim.

As palavras que eu não queria pronuncia deixaram os meus lábios com a voz mais fraca que alguma vez saíu das minhas cordas vocais quando os nossos olhares se cruzaram:

- Tenho medo, Mateus.

Os seus braços envolveram-me num abraço uma vez mais, como já tantas vezes fez.

Podia ouvir o seu coração. Podia sentir o calor do seu corpo. Podia sentir o seu cheiro. E podia também ouvir o meu eu interior a implorar-me para o deixar, para não lhe contar, para saír daqui o mais rápido possível!

- Quem é aquele? - ele perguntou, num tom um pouco duro.

- O meu ex... - respondi-lhe entre soluços.

Mas não tenho bem a certeza se ele ouviu o que eu disse, porque nesse instante o meu sangue era já visível nas suas mãos e braços.

Mateus olhou atónito, durante alguns segundos, para as suas mão ensanguentadas. Depois o seu olhoar cruzou o meu e quando dei conta já ele segurava o meu braço e olhava para o corte com os olhos esbugalhados.

- Laura... - a sua expressão era séria e a sua voz fria - porque é que ele está aqui?