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Vamos atirar uma bomba ao destino

Não somos de nos contentar com o que o destino reserva para nós. Sonhamos alto e frequentemente caminhamos fora da estrada.

Laura Plamer - Capítulo 20

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C A P Í T U L O  2 0

Levantar-me às seis e vinte. Desligar o despertador para não as acordar, pois tinham chegado domingo à noite. Tomar duche, pentear o meu cabelo selvagem, escolher umas calças, uma t-shirt, os ténis adequados, tudo isto sem sentir que estou a perder tempo.

Pesa-me o corpo e o espírito da noite passada em claro. É incrível como durante o dia, com o stresse das avaliações e das aulas, na companhia dos meus amigos, os meus pensamentos tumultuosos estão ocultos como que entorpecidos. Mas, ao cair da noite, já no dormitório, mal lanço o meu corpo sobre o colchão, eles acordam cheios de vontade de me atormentar noite dentro. As mesmas inseguranças, os mesmos medos, os mesmos arrepios que, há um ano, percorriam o meu corpo como descargas elétricas.

Sem dúvida que 2014 foi o pior ano da minha vida se não fosse o apoio e compreensão da minha família, que jamais soube a história toda…Já tenho tantas saudades daquele puto chato e queixinhas. Tenho de lhes ligar ainda hoje.

Ver o Miguel deixou-me bastante agitada como há muito não me sentia, fez -me retornar ao passado, como se ainda conseguisse sentir a sua respiração esbaforida sobre a minha cara, o bater acelerado do seu coração e a sua cólera, que se intensificavam com a bebida e com as discussões com o pai. O pesadelo tinha regressado e não tinha como fugir dele. Ter mudado de cidade não o tinha impedido de me procurar.

Quando encontrei o seu bilhete na minha mochila fiquei confusa, no entanto, decidi que tinha de me encontrar com ele e perguntar-lhe o porquê de ter vindo estudar para cá, para um colégio interno. Preciso de saber se ainda me ama porque apesar do que aconteceu…ele amava-me, do seu jeito.

No colégio imperava o silêncio. Tinha-me levantado cedo demais, porém não estava a fazer nada naquele quarto, às voltas na cama e com uma fome ingovernável.

- Bom dia, Dª Maria.

-Bom dia, Laura. Já acordada!? As aulas, hoje, começam mais tarde! Não te avisaram? Os inspetores vêm ao colégio, por isso, só há aulas da parte da tarde.

-Eu sei, mas não conseguia dormir mais e estou cheia de fome. Doida por uma das suas sandes.
-É para já! A do costume, certo!?

Depois de aquela sande de queijo crocante acompanhar de um café bem forte, estou pronta para estudar, tenho teste na semana que vem e ainda me faltam fazer os t.p.c de inglês. Assim estarei ocupada até às 11:30h e depois vou encontrar-me com ele.

Quando cheguei, ele já me aguardava no banco, atrás do pavilhão de educação física. Pede-me simpaticamente que me sente, enquanto teimo ficar em pé. Não me sentia à-vontade para me sentar ao lado do Miguel. Não insistiu, o que me deixou distintamente impressionada e ele percebeu.

-Como estás, Laurinha? Tenho tantas saudades tuas. – tenta tocar-me, mas afasto-me com repugnância. A expressão dele mudou, ficou rígido, frio, no entanto manteve a sua postura simpática inicial.

-Estou ótima, não podia estar melhor. E tu, o que estas aqui a fazer? – proferi embaraçada. Os seus olhos azuis percorriam-me de alto-a-baixo, deixando-me muito desconfortável.

-Pois, já vi que sim. Não gostei dos teus novos amigos, especialmente daquela lapa despenteada com cara de camelo. Ele quer comer-te o animal, mas eu mato-o se te tocar num fio de cabelo que seja – comecei a tremer, o meu coração batia à velocidade do som das suas palavras. Tive de me controlar sentia que me estava a começar a faltar o ar.

-Miguel, por favor, imploro-te, não lhes faças mal, eles não têm culpa nenhuma. Eles…eles são só meus colegas. E o Mateus é só um amigo.
Ele levantou-se tão depressa que me fez recuar e bater no caixote do lixo, comecei a deitar sangue, tinha feito um golpe bastante profundo na parte superior do meu braço, bem junto do cotovelo. Escondi para que ele não visse.

-Calma, amor. Eu só quero que estejas bem. Voltei para estar mais próximo de ti! – o seu sorriso era desconfortante e ao mesmo tempo agradável.

-Não…não me chames de amor. – o seu olhar ficou muito frio, tive medo do que me podia fazer. Levantou-se e acarinhou-me o rosto.

-Mas tu continuas a ser o meu amor, a minha menina, a minha namorada…A nossa relação merece uma segunda oportunidade. Eu já não bebo. Estou curado!

-Ahn…Miguel…A nossa relação não resulta. – parecia calmo e não cheira a álcool. Talvez mereça uma segunda oportunidade.

-Oh meu doce, eu ainda te amo e também, consigo ler nos teus olhos. Eu sei que fui um bruto contigo, mas EU MUDEI. Tens de acreditar em mim. Durante este ano, estive numa clinica de reabilitação e já não bebo, nem consumo. Quando soube que estavas em Lisboa, larguei tudo e vim estudar para aqui. Eu amo-te, amo-te muito e mudei por ti. – afastei-me um pouco dele. As suas palavras ressoavam na minha cabeça e faziam sentido. Ele estava diferente, calmo, cada palavra era dita com minúcia tal como no nosso primeiro encontro.

- Miguel… -foi o que consegui dizer.

- Laura!? Procurei-te pela escola toda, estávamos preocupados. Está tudo bem? – o Mateus quebrou a minha solvência.

- Não vês que sim! – Miguel responde bruscamente.

Mateus olhava confuso, ora para mim, ora para Miguel, e ele apercebeu.

- A Laura não te contou quem sou? – sorria sinicamente. - Não contaste aos teus amigos, meu amor?

- Amor? – Mateus estava baralhado e à espera que eu falasse.

- O Miguel…o Miguel é um amigo, grande amigo… - a minha voz tremia.

- AMIGO? – aquele olhar feriu-me, estava a sentir falta de ar - NAMORADO, eu sou o namorado da Laura.

O Mateus olhou para mim com uma expressão que não consegui decifrar, mas seguramente não era de alegria.

- Vinha chamar-te para almoçar, mas já vi que estás ocupada…

Não consegui dizer nada. Fiquei espantada a vê-lo afastar-se.