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Vamos atirar uma bomba ao destino

Não somos de nos contentar com o que o destino reserva para nós. Sonhamos alto e frequentemente caminhamos fora da estrada.

Para sempre teu

Acima de tudo, enquanto lerem, lembrem-se que eu sou uma amadora e não me interpretam mal. É a primeira estória que escrevo e aqui é o lugar mais apropriado para a deixar registada. (Isto porque eu perco tudo aquilo que escrevo.)

As duas identidades que vos vou apresentar nesta pequena narração invadiram, numa noite, o meu sono. A sua história de amor comoveu-me e, depois de a Jéssica ler, decidi partilhá-la convosco.

 

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Há quem chame de coincidência, acaso, destino; há quem diga que certas coisas estão escritas, que o que tem que acontecer, querendo ou não, acontece. Não importa se foi um motivo de força maior, o que importa é que o encontro aconteceu. Não um encontro de olhos, mãos, bocas, braços, mas um encontro de corações cansados.  

               

Ela ia entrar para a primeira classe e a mãe pediu ao filho da melhor amiga, que frequentava o quarto ano, para a acompanhar no caminho até à escola. Depois desse dia, passaram a fazer companhia um ao outro no caminho até à escola.

Alexandre, apesar da sua estatura baixa e arredonda era um menino muito ativo e gostava de se divertir com os outros miúdos da vila que não se atreviam a insulta-lo pelo seu aspeto.

Com apenas doze anos, vesse obrigado a sustentar a família, devido à morte de seu pai que fora flagelado durante anos por um cancro oral. Quando terminou os estudos, comunicou à mãe que ia alistar-se no exército, entrou para as forças especiais e passado algum tempo, partiu em missão para a Líbia.

Tornou-se num rapaz revoltado, de um momento para o outro perdera o seu ídolo, e esse fora o grande incentivo para entrar no exército, queria honrar o pai. Agora sentia que de alguma forma estava a seguir o rumo certo, o BMW que comprara sairá do suor do seu trabalho, ganhara a sua independência e tinha cumprido com todas as suas responsabilidades. Mas, nem tudo corria bem, tivera algumas namoradas mas nada sério, sempre fora tímido e reservado o que o impedia de se entregar completamente a alguém.

O ano que esteve fora de Portugal tinha-o ajudado a perceber o que realmente importava na sua vida, a sua mãe, o seu emprego, os amigos e sentira saudades do seu país, da tranquilidade da sua vila.

Um ano antes de Alexandre decidir ir em missão, morrera a mãe de Gabriela, de forma inesperada que deixou a vila completamente atónita; deixava duas filhas, Gabriela era a mais nova.

 Ficara chocado porque a mãe dela transmitia sempre alegria e saúde. Sentia pena pelas filhas, principalmente por Gabriela, por lhe fizera lembrar a sua história pessoal e, afinal de contas, ela era tão inocente e frágil que dificilmente ultrapassar a morte da mãe.

Alexandre enganara-se, ela não só tinha conseguido dar a volta por cima como continuava alegre e simpática como sempre fora, Gabi, era muito reservada e jamais demostrava o que sentia, ainda que estivesse a morrer por dentro.

Continuou os estudos com a ajuda do pai e da irmã e entrou na universidade de enfermagem com o desejo de poder contribuir para melhorar a saúde da população, mas principalmente para nunca mais estar perante uma doença e não saber o que fazer para a destruir, como tinha acontecido com a mãe.   

Quando regressou, Alexandre, encontrou tudo na mesma, mas algo lhe dizia que nada iria ser igual. Cruza-se com Gabriela e naquele momento o mundo parou para que eles se olhassem e procurassem encontrar as diferenças desde a última vez que se viram, ele estava um homem, tinha barba, e um corpo invejável. Ela continua com um áspero inocente, mas sempre belicoso, no entanto algo mudara, estava madura, já não era aquela magrizela sem graça, tinha corpo de mulher.

Aquele foi um encontro circunstancial, de pouca conversa. Passaram a ver-se ao fim de semana, até que numa festa da vila ele ganhou coragem e foi falar com ela, na tentativa de se aproximar e ganhar a sua confiança.

Começaram a encontrar-se cada vez mais, compartilhando os seus segredos e medos, até que a amizade que os unia se transformou em paixão; num desejo ardente, numa procura por carinho. Queriam-se, desejavam-se e ele nunca sentira nada tão intenso e, no caso dela, ele era o primeiro homem que lhe tocava.

Os anos foram passando, Gabriela acabou o curso e começou a trabalhar pouco tempo depois e ele uma pessoa respeitada no seio do exército.

Apesar de nem tudo ter sido fácil, das suas profissões exigirem muito tempo a ambos, sem oferecerem grandes garantias de estabilidade, casaram e tiveram quatro filhos.

Quando estava grávida pela quarta vez, Gabriela, sofreu um acidente de carro que a deixou em morte cerebral, mas ainda assim mantiveram-na ligada a máquinas de suporte de vida durante 123 dias, cerca de quatro meses, para salvar o bebé.

Passados vinte e cinto anos, Alexandre continua a escrever-lhe cartas.

 

Gabi,

Há vinte e cinto anos tive a sorte de me cruzar contigo, de te ver - e, de alguma forma, me parabenizo por isso. Agora que olho para o teu retrato vejo como sempre foste linda, doce ... Como ainda te amo, meu amor…

Ainda consigo sentir o teu cheiro pela casa, ainda acho que foi tudo um sonho e que vou voltar a ouvir a tua voz. Ofereceste a vida por tanta gente e não te conseguiste salvar a ti. Mesmo depois destes anos todos ainda não consigo encontrar as respostas para tudo o que aconteceu.

Eras tão perfeita, que mesmo morta deste ao mundo um ser maravilhoso, que também ele já é pai e…e que formoso neto que nos deu, minha Gabi.

Minha doce Gabi, minha linda mulher, que linda estavas nesta foto, que sorriso!

 

Para sempre teu.

Alex

 

Os católicos acreditam na vida depois da morte, quem sabe se a Gabriela não se encontra à espera do seu Alex.

 

 

 

Não culpem o destino, pois estas personagens encontraram-se, amaram-se, uniram-se e nem a morte os conseguiu separar. Não o culpem por ele nos dar e tirar a um piscar de olhos; por nos roubar momentos e anos a mais com quem amamos. Não o culpem, ele não pode ser julgado, ele é o sentenciador. O juiz mais intransigente, que condena até à morte.

É preciso viver cada dia como se fosse o último para podermos aproveitar e valorizar todos os momentos com quem mais amamos. Fruir das oportunidades que surgem agora porque não sabemos se voltaram a aparecer no futuro. Se é para viver que seja o agora, o já.

Vamos atirar uma bomba ao destino.

 

 

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